Ja faz algum tempo que planejo publicar esse texto. Depois de traduzir o Manual de Redes Sociais da Associated Press, lembrei que o Handbook of Journalism da Reuters também tangencia aspectos importantes do search no trabalho do repórter. Usei alguns trechos quando compus o meu TCC, principalmente a parte em que dizem que o blogueiro da Reuters deve colocar as tags para melhor identificar seu conteúdo aos buscadores.
A tradução é, como de costume, livre e quaisquer erros são meus, não da Reuters. Sras e srs, respeitável público:
Reportando com base em dados da web e usando mídias sociais no exercício do jornalismo na Reuters
Na Reuters, somos comprometidos com o jornalismo agressivo em todas as suas formas, o que inclui a reportagem com o uso de meios digitais. Ainda assim, traçamos uma linha muito clara entre as nossas reportagens e a ilegalidade.
Quando dizemos “reportar a partir da web” nos referimos às práticas do jornalismo tradicional adaptado às características do virtual.
A apuração dos fatos, a arregimentação de fontes e a identificação destas devem estar fundamentadas nos mesmos alicerces que norteiam a prática jornalística offline. Sugerimos que jamais baseie suas reportagens em informações da web sem determinar a sua origem.
CONTEÚDO
• Identificação
• Esteja informado
• Atribuições
• Jogo limpo
• Confronte
• O uso de mídias sociais
• Princípios básicos
Identifique-se
Os repórteres devem sempre identificar-se como tais. Essa transparência é essencial ,esteja o profissional onde estiver. Isto inclui salas de bate papo virtuais e/ou fóruns de discussão. Os repórteres da Reuters “não arrombam fechaduras” no exercício de sua função de coleta de informações; da mesma forma, não transgridem as leis na busca por dados.
Procurar por informações disponíveis publicamente é a regra do jogo. A invasão de sistemas com senhas de terceiros ou qualquer outro atentado contra sistemas de segurança virtual são inaceitáveis.
Esteja informado
As técnicas mais ousadas, no sentido de busca por informações em maior profundidade, devem ser usadas apenas por aqueles repórteres que têm conhecimento avançado acerca da maneira que uma organização publica dados.
Esse conhecimento nos protege contra todo tipo de informações falsas, conhecidas como internet spoofs. Reserve tempo para salvar e para imprimir capturas de tela com o conteúdo da notícia. Assim, nos protegemos contra eventuais medidas legais que a organização reportada possa tomar alegando a disseminação de informações falsas.
Se estiver em dúvida como realizar uma captura de tela, pergunte alguém mais instruído.
Desta forma, evitamos a perda da prova no caso de um site ser removido da web.
Desconfie de qualquer notícia que fuja à normalidade. Não dispense a ela o tratamento comum, dado normalmente aos informes distribuídos à imprensa ou publicados corriqueiramente no site, blog, etc. Aguarde que a organização se manifeste ou, ao menos, seja notificada e confirme sua descoberta e tenha a oportunidade de se posicionar.
Nessas horas, cabe avaliar com calma e junto ao editor responsável de que maneira proceder. Lembramos que a noticiabilidade, ou seja, o valor-notícia (newsworthyness) deve ser pesado de maneira criteriosa. Informações de cunho privado, por exemplo, devem ser absolutamente indispensáveis ao contexto da notícias, antes de serem arremessadas nas linhas da nota assinada por um jornalista da Reuters. Não esqueça que as leis de direito sobre determinado conteúdo continuam valendo na web.
Atribuições
Os títulos devem ser absolutamente claros quando obtem-se informações de fontes incomuns. No decorrer da notícia é obrigação informar, logo nas primeiras linhas, de que maneira chegou-se aos dados. Vale a pena explicitar isso várias vezes ao longo da nota/artigo. É direito do leitor saber como você chegou às informações.
Jogo limpo
O fato de informarmos às organizações em nossas reportagens que estamos ocupados cobrindo determinado assunto não as impede de mudar o rumo de suas ações e anular a relevância de nosso trabalho. Tal circunstância não altera nossa responsabilidade em permitir que a entidade envolvida se manifeste sobre o assunto. Caso esta se reserve o direito de não comentar, deixe isto claro na nota.
Confronte
A notícia encontra-se dentro dos limites do plausível? Esteja alerta para divergências muito radicais com as últimas informações que teve sobre um determinado assunto. Elas podem sinalizar que você esteja interpretando a informação fora do contexto apropriado.
Blogar
O ato de blogar representa uma aproximação informal no modo de produzir conteúdo. Ele é resultado de uma demanda dos usuários da web em ter ferramentas que possibilitem a publicação de informações e criem empatia. Além disso, geram engajamento por parte da comunidade leitora. Blogar é um ato de natureza flexível e pouco engessado por regras.
Um blogueiro da Reuters usa essa mídia com o intuito de despertar uma discussão acerca de determinado tópico, e estabelecer sua ligação com informações mais robustas, alocadas em outros ambientes da web. Um blog também pode ser usado para proporcionar aos leitores uma visão de bastidores do processo de construção da notícia ,e para arregimentar potenciais fontes. Nele cabem, ainda, usar de humor e de anedotas para colorir aspectos que não encontram lugar no formato clássico da notícia.
Além disso, o blog é uma plataforma que facilita a disseminação de arquivos de multimídia. Atentos a isso, alguns jornalistas mantém vlogs (blogues com ênfase em vídeos).
Um blogueiro da Reuters deve:
- Despertar o interesse;
- Escrever de forma a estabelecer um diálogo: levantar questões relevantes, convidar o leitor a contribuir com suas perspectivas, discutir o publicado em outros blogues, incentivar o desenvolvimento de idéias sem concluir e responder aos comentários postados pela comunidade leitora;
- Sempre que possível, linkar para outros conteúdos relevantes;
- Relacionar-se com outros blogueiros coma finalidade de engajar em uma troca saudável de links recíprocos;
- Usar o recurso de tags de maneira apropriada, facilitando a identificação do conteúdo por mecanismos de busca;
- Escrever de forma pessoal, usando de observações e de bom humor;
- Sempre que possível, incluir arquivos de multimídia e pensar “fora da caixa” do layout de um post tradicional;
- Atribuir os créditos necessários aos conteúdos postados;
- Submeter o post aos olhos de terceiros antes de publicar;
- Solicitar à redação que posicione um link para seu post em notícias relacionadas.
Em contrapartida, um blogueiro da Reuters deve evitar a todo custo:
- Defender uma opinião. Ao passo que ele é incentivado a levantar questionamentos e a argumentar, ele não deve interpretar a liberdade de blogar em nome da Reuters como licença para defender suas opiniões pessoais.
- Responder de maneira inadequada aos comentários postados;
- Incentivar de forma explícita os comentários com frases do tipo “comente”. Caso tenha perguntas específicas, faça de forma clara e deixe que o campo para comentários cuide do resto.
- Publicar conteúdo protegido por leis autorais;
- Escrever de forma impessoal nos posts;
- Buscar inspiração para formatos e pautas em outros blogues, sem que lhes sejam atribuídos os devidos créditos;
O uso de blogues na Reuters é um processo em constante evolução e novas diretrizes são publicadas a cada momento. Você pode acessar as diretrizes no seguinte link. Caso tenha de alterar o conteúdo de um blogue por força das diretrizes da Reuters, consulte as guias Corrections, Refiles, Kills, Repeats e Embargoes.
Enciclopédias online
As enciclopédias virtuais, baseadas em contribuições voluntárias e, muitas vezes, marcadas pelo anonimato de seus autores, devem ser apreciadas com moderação. A Wikipédia, conhecida por ser a “enciclopédia das pessoas” é uma bom ponto de partida na busca por informações. Ainda assim, jamais devemos ancorar nossas pesquisas em seu conteúdo. Não cite, nem copie o conteúdo dessas enciclopédias. Alem do seu conteúdo não ser verificado, os registros podem ser alterados por outros contribuidores. Procure os sites oficiais ou outras fontes dignas de atribuição. Não atribua a Wikipédia ou a outro site similar as informações usadas para iniciar uma reportagem. Existem outros sites que podem servir para averiguação confiável. Normalmente, você encontra referencias a esses sites no rodapé das entradas em enciclopédias virtuais.A única ocasião em que devemos mencionar essas enciclopédias é nas ocasiões em que são parte central de uma notícia.
O uso de mídias sociais
Por um lado, queremos incentiva-lo a lançar mão das mídias sociais em seu trabalho; ao mesmo tempo somos compelidos a chamar sua atenção para os riscos envoltos nessa aproximação. Nos referimos, principalmente, aos riscos que ameacem a nossa reputação, fruto de trabalho duro e marcado pela seriedade e busca por independência e manutenção da imparcialidade. Nas recomendações a seguir, oferecemos diretrizes gerais e sugestões detalhadas de como gerir a sua existência nas mais conhecidas e populares redes sociais.
Estamos em um mundo de troca espontânea de informações e, mais do que nunca, cabe ao jornalista exercer o seu bom senso na avaliação do que é trocado em redes sociais. Cientes deste fato, desenvolvemos os seguintes princípios. Incentivamos que os considere em suas atividades nas redes sociais.
Princípios básicos
As redes sociais parecem beneficiar a prática do jornalismo na Reuters de forma inédita. Os recursos desses círculos, ajudam em todos os tipos de notícia, as curtas e as em maior profundidade. Além de servirem como canal para arregimentar fontes exclusivas e opiniões gerais, as mídias sociais são ambientes que oferecem riqueza de pautas: dicas são descobertas no Twitter, no LinkedIn, encontram-se fontes para cada tipo de assunto e o Facebook dá ao repórter uma pluralidade de opiniões diversificada etc.
Nas redes sociais, encontramos, ainda, dilemas referentes à disseminação e a forma de divulgação de determinadas notícias. Na Reuters, conversamos sobre o que deve e aquilo que não deve ser dito. Levamos em consideração a tradição da cobertura de alguns assuntos e, sabemos, esta não será a primeira, nem a última vez que vamos tratar dela. Desde o lançamento do Manual Reuters Para Jornalistas e Blogueiros, o mundo virtual sempre foi repleto de armadilhas. Com o passar dos anos, nos acostumamos a identificar melhor tais armadilhas e aprendemos a contorna-las. Então simplificamos as diretrizes em algumas linhas apenas.
Em vez de aterrorizar, queremos proporcionar aos repórteres um aproveitamento seguro dos recursos presentes em redes e em mídias sociais. Partimos do princípio de que repórteres têm a mesma liberdade de expressão e deveres inerentes a qualquer outro Ser Humano. Se quiserem tuitar sobre um filme, uma peça teatral ou uma receita de que gostem, têm todo o direito.
Mas isso muda quando um repórter da Reuters quer se manifestar sobre um assunto de ordem pública ou algo potencialmente noticiável. Nessa hora, cabe ao jornalista avaliar o impacto que sua opinião pode causar em seu trabalho e na imagem da Reuters. Sempre que partilhar sua opinião pessoal, deve informar expressamente tratar-se de sua avaliação e que não fala em nome da Thomson Reuters.
Sempre que estiver reportando para a Reuters, seja para as notícias online, seja para contribuir em outra matéria, deve estar atento para o Código de Conduta e dos Princípios da Verdade, onde somos compelidos a agir dentro dos limites da imparcialidade, justiça e responsabilidade. Por um lado, tais princípios devem ser respeitados sempre que “curtimos” algo no Facebook, inserimos uma badge em nossos blogues ou nos unimos a uma causa nas redes sociais em assuntos que tangenciam nossa pauta. Por outro, pode ser requerido que um repórter “curta” ou apóie de outra maneira uma causa para chegar às informações que pretende obter. Desnecessário dizer que nenhum repórter é obrigado/forçado ou coagido a apoiar causas na web, a seguir um determinado perfil ou a partilhar posts. Acreditamos que um dos aspectos mais notórios dos jornalistas da Reuters é a confiança que temos em seu juízo e sua capacidade de distinguir o apropriado do errado. Esperamos de nossos profissionais que justifiquem tal confiança quando tratarem de questões sensíveis, especialmente no mundo das redes e das mídias sociais.
Esperamos de nossos jornalistas que as reportagens ofereçam perspectivas conclusivas acerca do assunto abordado. Ao mesmo tempo, queremos que os profissionais da Reuters mantenham a menta aberta para alterações em suas conclusões, caso os fatos sofram uma mudança repentina, fruto de investigação e de reportagem posteriores. Tal postura requer disciplina e uma perspectiva cética constantes.
Sabemos que tal comportamento é dificultado pela dinâmica extremamente veloz das notícias em redes sociais, marcada pela rotina pensar-escrever-publicar. Ainda assim, manter essa postura é fundamental para garantir nossa reputação e credibilidade como jornalistas. Sempre que o repórter da Reuters estiver em dúvida com relação a um tuíte, um post ou outra ação na internet, deve convidar um colega para avaliar a melhor maneira de prosseguir, mesmo que tal expediente implique no retardo da publicação.
Cada vez que um assunto estiver relacionado à Thomson Reuters, é dever do repórter manter a confidencialidade e preservar a discrição. Evite divulgar informações internas, questões pessoais e dados de reuniões internas; estas, sempre em off. Queremos evitar que nossas diretrizes sejam interpretadas como censura ao exercício do livre pensamento e ao intercâmbio de idéias ligadas ao bem comum. Também não queremos tolher o direito à liberdade garantida nas Leis Trabalhistas, em que a discussão sobre honorários e de condições de trabalho são direitos assegurados.
A complexidade do trabalho de reportagem com o uso de redes e de mídias sociais é evidente. Ao passo que o ambiente virtual demanda por rapidez, constância e comunicação sintética, o jornalismo está alicerçado sobre os pilares da identificação precisa dos fatos e pela cuidadosa avaliação dos pensamentos. O jornalismo é repleto de recursos que impedem a publicação de informações, entre estes a figura do editor. As mídias e redes sociais têm nada disso. Tudo que dissermos online pode ser usado contra nós nos tribunais e ficará marcado nas mentes daqueles que, seja qual for a motivação, querem projetar sobre a Reuters a sombra do duvidoso e do inverídico, do parcial. Não somos capazes de controlar a natureza do conteúdo partilhado em nossas contas de redes sociais. Logo, cada vez que nos engajarmos no vôo sem paraquedas das mídias sociais, é dever nosso lembrar que qualquer descuido restará petrificado na memória daqueles que nos cercam.
Devemos evitar a todo custo o envolvimento da Reuters em disputas marcadas pela paixão, em retóricas controversas e em proselitismo infundado. Quando um repórter da Reuters decide seguir alguém no mundo aberto das redes sociais, está divulgando abertamente a identidade de uma potencial fonte.
Seja cuidadoso em suas atividades nas mídias sociais. Explore o ambiente ao máximo para conseguir as informações que necessita. Mas, antes de postar ou de tuitar, examine os potenciais reflexos sobre o seu profissionalismo sobre a reputação coletiva da Reuters. Em caso de dúvidas, não hesite conversar com colegas, com seu editor ou supervisor.


